O do processo de produção editorial, como

O processo de mediação editorial surgiu, primordialmente, no contexto da necessidade da divulgação da palavra escrita, evoluindo ora de forma isolada, ora adaptando-se às diferentes mutações do mercado. Dessarte, a história da mediação editorial está intimamente ligada às interações mantidas entre inovação tecnológica e progresso social, que permanentemente avançam em direção à democratização do texto e, sobretudo, sempre auxiliaram à comunicação entre o autor e o leitor. A atividade editorial como a vemos hoje é, nesse sentido, o ponto de chegada de um longo caminho percorrido pelos atos de escrita e leitura, que nem sempre nos foram tão acessíveis. O mero ato de oferecer legibilidade ao texto é aquilo que serve de base a toda a prática de mediação editorial.«Não existe nenhum texto fora do suporte que o dá a ler, que não hácompreensão de um escrito, qualquer que ele seja, que não dependa das formas através das quais ele chega ao seu leitor.”» (Chartier, 1990: 127)    O editor torna esta comunicação possível, certificando-se de que a mensagem que o autor quer passar, chega ao seu leitor de forma clara e eficaz. Estamos perante uma atividade complexa que não só desempenha um papel importantíssimo dentro do processo de produção editorial, como é também responsável por impor diretrizes tanto ao autor, como ao editor, exigindo a este último que seja ele próprio um bom leitor e assuma o exercício rigoroso da crítica e da razão.     Tal complexidade reside no facto de ser fundamental ao trabalho do editor que este não invada, de forma significativa, o espaço autoral, mantendo sempre o equilíbrio entre o conteúdo do texto original e o seu próprio contributo.Este trabalho propõe a exploração desta questão, através do estudo da dinâmica da relação Autor-Editor, e de forma a identificar onde no processo de produção editorial se posicionam os dois agentes, onde começa um e acaba o outro.História da Mediação Editorial/Evolução da figura do Editor    Diferentes aceções à figura do Editor foram surgindo ao longo dos séculos, ocasionadas fundamentalmente por três grandes invenções: a escrita, o papel e a imprensa. Tais preeminentes momentos, a par com a posterior alfabetização de novas classes sociais, são também, de certo modo, períodos inaugurativos da tradição editorial.A origem da primeira designação de “Editor” remonta à Antiguidade Romana, reconhecendo, desde o século III AEC, aqueles que “assumiam a responsabilidade de reproduzir e de cuidar das cópias dos manuscritos originais dos autores” (Bragança, 2005: 220). Também na Biblioteca de Alexandria, no fim do século, a revisão e a unificação de diferentes versões de um só manuscrito eram práticas comuns dos seus bibliotecários, como é o caso do afamado Zenódoto de Éfeso, considerado o primeiro editor crítico de Homero .  Entre os séculos V e XII EC, durante o período monástico, a atividade editorial estava reservada às castas religiosas, confinada aos mosteiros, onde, em scriptoria, monges copiavam manuscritos que eventualmente seriam revistos, iluminados, encadernados e dispostos exclusivamente a aristocratas, eruditos ou colecionadores. Este monopólio clerical foi, no entanto, subsequentemente superado durante o período laico medieval, com a emergência de várias universidades europeias e a procura de livros que geraram, levando à criação do sistema de pecia  e emergência de stationarius.A despeito da chegada do Papel ao Ocidente se ter verificado logo no início do século XI, a sua popularização pela Europa só tomou lugar em finais do século XIV, precedendo, desse modo, a invenção da Imprensa por Gutenberg entre 1440 e 1450. Até ao fim do século, a arte de Gutenberg já se havia difundido por todo o território alemão, favorecendo o aparecimento de igualmente talentosos impressores e tipógrafos. A difusão da imprensa (bem como a própria difusão de técnicas tipográficas) aumentou drasticamente o número de livros produzidos, tanto que os meros milhares de manuscritos que circulavam na Europa até então, atingiram os milhões de exemplares no fim do século XV.Ademais, como argumentava o Dr. Emanuel Araújo, estes impressores e tipógrafos, desde o séc. XV ao XVII, assumiam também a função de editores.«(…) os pioneiros do livro impresso foram, na realidade, mais do que simples tipógrafos ou impressores, na medida em que tiveram de buscar elementos destinados a facilitar a leitura, substituindo a riqueza intrínseca dos manuscritos por uma qualidade diferente, a da paginação. Nesse sentido, além de tipógrafos, eram também editores, responsáveis pela normalização do texto e pelo conjunto da obra que imprimiam.» (Araújo, 2006: 46).A diferenciação entre “Impressor” e “Editor” chegaria mais tarde, aproximando cada vez mais a figura do Editor à sua designação atual. Gradualmente verificou-se uma especialização de agentes editoriais, que levaram à distribuição de funções entre o impressor, o livreiro e o editor. Todavia, ainda no séc. XVIII, concerniam ao livreiro muitas profissões que se encontram no Editor moderno, como a leitura, negociação e compra de manuscritos, além do comércio de livros propriamente dito. Só a partir da década de 30 é que a profissão de editor é autonomizada, deixando se ser vista como uma espécie de “atividade anexa” (Lisboa, 2007: 29) Para todo o progresso da atividade editorial durante esta época contribuíram também a crescente alfabetização da sociedade, a perseverante suplantação de movimentos censuradores (até ao final do séc. XVIII) e a intensa industrialização que se fez sentir em vários países europeus .É digna também de menção, a Convenção de Berna, de 1886, que veio inaugurar uma tradição europeia (e ulteriormente intercontinental) de proteção de obras literárias e artísticas entre adaptações, traduções ou edições internacionais.O Editor como AutorA figura moderna do Editor é ainda hoje debatida quanto à posição que ocupa dentro do ciclo de produção editorial.Para o filólogo António Houaiss, a definição de “Editor” partilha a mesma esfera semântica que a de “Autor”, uma vez que “todos os livros são produto da ação combinada do autor e do Editor, às vezes gestado mais pelo autor, outras vezes criados até pelo editor” (Bragança, 2005: 222) Deste modo, tal como Kant o havia patenteado, o editor acaba por falar publicamente através do texto autoral, para além de que, frequentemente, parte do próprio editor “a causa principal, a origem de”, tais “atribuições semânticas ao conceito de autor” (ibidem: 222). Em ambas estas situações, a intervenção do editor coloca-o então no mesmo plano do autor, criando, consequentemente, uma relação exigente entre os dois. O manuscrito é um objeto aos olhos do editor, mas não aos do escritor. Enquanto que o editor usufrui de distância suficiente para avaliar criticamente um texto, para o seu autor, este trata-se ainda de um produto seu, que não se deve a si mesmo, mas sim ao seu criador. A postura do editor aquando da receção do manuscrito deve, por essa razão, atentar sempre às intenções do autor, àquilo que este pretende comunicar, se o faz da melhor forma e como o pode ajudar a consegui-lo. Uma das mais célebres situações no que respeita a esta assistência e orientação editorial é a publicação de To Kill a Mockingbird em 1960. Tay Hohoff, a editora de Harper Lee, havia aconselhado a autora a inverter a ordem de publicação dos seus manuscritos: Go set a Watchman (2015) seria, na realidade, o primeiro rascunho do clássico americano. Embora a interferência de Hohoff não se tenha revelado inconveniente ao conteúdo proposto pelo autor, facilitando, pelo contrário, a comunicação com o leitor, são outros os casos que levantam controvérsia em relação aos limites da intervenção do editor.O romance de Anthony Burgess, A Clockwork Orange, publicado no Reino Unido em 1962 com 21 capítulos, foi até 1986 publicado nos Estados Unidos com apenas 20. Isto porque, o editor Eric Swenson acreditava que o final proposto pelo autor não era realista e não agradaria ao leitor americano, que era “tougher than the British and could face up to reality” (Burgess s.d. apud Lesiew, 2015: 67). O autor confessou, futuramente, que cedeu a esta alteração perante a insistência do editor e o seu próprio embaraço financeiro.  Este corte do capítulo final representou, por conseguinte, uma mudança drástica àquilo que o autor pretendia comunicar, acabando por conduzir o leitor a uma tese inteiramente oposta. Para além do editor ter então falhado em perceber a mensagem que o autor desejava transmitir , adulterando-a radicalmente, falhou de igual modo no cumprimento do desígnio último de todo e qualquer editor: o de transmitir as ideias do autor de forma clara e eficaz.